É o fim de uma era. Nesta sexta-feira (31), William Bonner se despediu do Jornal Nacional após 29 anos na bancada do principal telejornal da TV brasileira. Ao lado de Renata Vasconcellos, o jornalista passou o bastão para César Tralli, que assume o comando do JN a partir da próxima segunda-feira, 3 de novembro. O momento histórico encerra um ciclo que começou ainda na década de 1990, quando Bonner recebeu a missão de substituir outro ícone da comunicação: Cid Moreira.
O adeus de Bonner foi carregado de emoção. Depois do noticiário do dia, o apresentador chamou César Tralli para uma conversa simbólica. “Quando era jovem, fiz o primeiro Jornal Nacional ao lado de Cid Moreira. Sentado aqui no JN, ele estava fazendo o aquecimento de voz que ele fazia e era engraçadíssimo. Perguntei para ele: ‘em que momento você deixou de ficar nervoso com o Jornal Nacional?’ e eu brinquei: ‘você está nervoso agora? Estou tão nervoso agora. Como você está?’”, contou Bonner, visivelmente emocionado.
Tralli respondeu com serenidade: “Estou impressionado com essa redação lotada, encontrando colegas de todas as áreas. É uma alegria ver tanta gente que a gente gosta. Mas estou sereno”. Ao lado deles, Renata Vasconcellos resumiu o sentimento da noite: “Digo para vocês que também estou emocionada. Em compartilhar essa bancada com dois monstros do jornalismo”.
Cumprimentos, fotografias e muitas lágrimas marcaram também o último dia de Cid Moreira como âncora do JN, em março de 1996, segundo o jornal O Globo. Naquele dia, ele entregou o bastão justamente para William Bonner e Lilian Witte Fibe. Leilane Neubarth, Fátima Bernardes, Renata Caputti e o próprio Bonner choraram ao acompanhar o veterano em seu adeus.
O estúdio, que havia sido preparado especialmente para a despedida, transformou-se numa grande festa. Cid recebeu um beijo de Leilane, um abraço do diretor Daniel Filho, consolou Glória Maria, que chorava copiosamente, e foi parabenizado por Evandro Carlos de Andrade, então diretor de Jornalismo da Globo. “Cid é insubstituível”, afirmou Bonner. “Não vou substituí-lo; vou sucedê-lo. Ele e Sérgio Chapelin são dois ícones”.
Em entrevista ao O Globo antes de deixar o telejornal, Cid declarou que estava em paz com sua decisão. “Parei no auge, assim como Pelé. Quando fui comunicado das mudanças, lembrei muito dele. Pelé foi convidado para voltar à seleção em 1974 e não quis. Exatamente como Pelé, saio de campo no momento ideal”.
Mesmo após o adeus, o famoso “boa noite” de Cid não desapareceu de vez da programação. No domingo seguinte, ele voltaria no encerramento do Fantástico, interpretando a oração ecumênica que abria a programação da emissora. Na segunda-feira, retornou ao JN para narrar o primeiro editorial da nova fase do telejornal: “O povo vai se identificar ainda mais comigo, pois a emissora expressará sua opinião sobre temas polêmicos por meio da minha voz”.
Na manhã de sua despedida, Cid recebeu uma ligação de dona Elza, sua mãe, então com 92 anos, que ligou chorando de Taubaté, sem entender a saída do filho. Ele respondeu com calma: “Mãe, você acha que um guerreiro como eu vai cair assim? Você continuará me vendo na TV, só que por menos tempo. Estou com 68 anos e já era hora de ter um refresco”.
Aos 68, o apresentador mantinha uma rotina disciplinada: acordava cedo, tomava café da manhã com frutas e iogurte — era vegetariano desde os 30 anos — e contava com a ajuda da esposa, Ulhiana Naumtchyk Moreira, para escolher o figurino da noite. “Quando comecei a namorar o Cid, ele se vestia como velho. Então, passei a cuidar de todo o visual dele”, contou Ulhiana.
“Conheci Ulhiana quando estava com problema capilar. Ela me inspirou confiança logo na primeira conversa. Acabei me apaixonando e, hoje, não deixo outra pessoa mexer no meu cabelo”, revelou Cid, encerrando a era em que seu “boa noite” pertencia a milhões de brasileiros — para passar a ser dito exclusivamente à esposa.
Cid Moreira apresentou o Jornal Nacional pela última vez em 30 de março de 1996, após 26 anos e cerca de oito mil edições. Na época, William Bonner e Lilian Witte Fibe assumiram a bancada, enquanto Sérgio Chapelin foi transferido para o Globo Repórter, onde permaneceu até 2019.
Agora, quase três décadas depois, o ciclo se repete. A saída de Bonner, que começou ao lado de Cid e encerra sua trajetória no mesmo cenário, marca o fim de mais uma geração do telejornalismo brasileiro. Como disse Cid em 1996, “é o momento de pensar, relaxar e experimentar a liberdade total, que todo mundo sonha”. Talvez seja exatamente isso que Bonner esteja prestes a fazer.
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